IDENTIDADES EM TRANSIÇÃO: ENVELHECIMENTO E TECNOLOGIA CERÂMICA NO SAMBAQUI MORRO DOS ANJOS, NO VALE DO RIBEIRA

Soraya Martins de Alencar

Resumo


O vale do rio Ribeira de Iguape é considerado como uma área de confluência de territórios por suas características geomorfológicas, que permite o acesso entre o planalto e o litoral. E foi ocupado, ao longo de milênios, por grupos de pescadores, caçadores coletores complexos que erigiam montículos artificiais denominados sambaquis. O sambaqui Morro dos Anjos é o único desta região com remanescentes de afinidades biológicas com grupos ceramistas da tradição Taquara-Itararé e corresponde ao último período de ocupação dos sambaquieiros. As práticas funerárias poderiam enunciar algumas questões sobre como se estabeleciam as relações sociais entre esses grupos, segundo categorias de identidade, no processo formativo desse monumento. As evidências materiais da coexistência de longo prazo entre indivíduos de locais e práticas sociais distintas motivou diferentes estratégias de interação entre as categorias de idade e gênero, na conformação de uma identidade que defina e compreenda esse monumento nos seus próprios termos.

Palavras-chave


Envelhecimento; Identidade; Cerâmica; Sambaqui; Vale do Ribeira.

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DOI: http://dx.doi.org/10.18224/hab.v18i2.8295

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