Implodindo Luzia: Traçando a Construção de Raça, Etnicidade e Nacionalidade na Arqueologia Brasileira

Marcus A. S. Wittmann

Resumo


Este artigo se propõe a analisar a construção do conhecimento arqueológico referente à Luzia, o hominídeo mais antigo encontrado no Brasil. Traçando os diferentes locais, tempos, métodos e teorias pelas quais o crânio do Hominídeo I, da Lapa Vermelha IV, passou, pretende-se mostrar como sua identidade, de primeira brasileira, foi formada pela Arqueologia brasileira e pela mídia. Seguindo controvérsias e debates acerca de Luzia, desde sua descoberta na década de 1970 até a solidificação de sua identidade brasileira na década de 1990 e na manutenção e uso dessa verdade nota-se, atualmente, como Luzia foi constituída como um fato científico de grande relevância para a Arqueologia brasileira e mundial. A implosão - conceito proposto por Haraway - do processo de construção do conhecimento e de extroversão deste sobre Luzia nos mostra como os conceitos de raça, etnicidade e nacionalidade são constituídos na e pela arqueologia brasileira.

Palavras-chave


Antropologia da Ciência; Arqueologia; Luzia.

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DOI: http://dx.doi.org/10.18224/hab.v16i2.5792

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